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Adoecimentos no processo acadêmico: quando estudar deixa de ser apenas aprender

  • Foto do escritor: Wallyson Pereira dos Reis
    Wallyson Pereira dos Reis
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

por: Psicanalista Wallyson Reis

A vida universitária costuma ser apresentada como tempo de crescimento, autonomia e construção de futuro. Para muitos, de fato é. Mas também pode ser um período de intenso sofrimento psíquico.

Ansiedade constante, dificuldade de concentração, insônia antes de provas, sensação de nunca ser suficiente, medo de falhar e cansaço persistente são experiências frequentes entre estudantes. Nem sempre esses sinais são percebidos como sofrimento. Muitas vezes são naturalizados como “parte do processo”.

Mas quando o estudo começa a produzir mais angústia do que mobilização, algo merece ser escutado.


Quando o desempenho vira identidade


Na experiência acadêmica contemporânea, é comum que o desempenho se confunda com valor pessoal. A nota deixa de ser apenas avaliação de conhecimento e passa a funcionar como medida de quem se é.

Nesse cenário, falhar não significa apenas errar uma questão. Significa ameaçar uma imagem: a de competente, inteligente, capaz.

A psicanálise nos ajuda a compreender como o ideal que o sujeito constrói sobre si pode se tornar excessivamente rígido. Quando o estudante se identifica apenas com a exigência de excelência, qualquer limite vivido como humano passa a ser interpretado como fracasso.

O corpo responde.

A concentração diminui.O sono se altera.A ansiedade aumenta.

Não porque o estudante seja insuficiente, mas porque está sustentando uma cobrança interna constante.


Ansiedade, foco e diagnósticos apressados


A dificuldade de concentração é uma das queixas mais comuns na vida acadêmica. Muitas vezes surge a dúvida: TDAH ou ansiedade?

Em alguns casos, avaliações especializadas são importantes e necessárias. Em outros, a dificuldade de foco está relacionada ao estado de alerta contínuo. Quando o estudante vive sob pressão intensa, o organismo prioriza a sobrevivência emocional. E em estado de ameaça, ninguém aprende com qualidade.

A psicanálise não descarta diagnósticos. Mas pergunta: o que está acontecendo na história desse sujeito? Que exigências estão sendo sustentadas? Que medos estão em jogo?

Antes de reduzir o sofrimento a um rótulo, é preciso escutá-lo.


Solidão, migração e excesso de responsabilidade


Para muitos estudantes, a universidade implica também deslocamento. Nova cidade, novo país, novas redes. O que era suporte familiar se transforma em autonomia forçada.

Alguns assumem cedo demais a posição de quem precisa “dar conta”. Trabalham, estudam, mantêm expectativas familiares e evitam demonstrar fragilidade. O resultado pode ser um endurecimento emocional que, a longo prazo, cobra um preço.

Quando sobreviver se torna prioridade, sentir pode parecer um luxo. Mas a desconexão afetiva tende a produzir vazio, irritabilidade e dificuldade relacional.


A importância da terapia no percurso acadêmico


A terapia não é apenas um espaço para aliviar sintomas. É um lugar para compreender o que sustenta esses sintomas.

No contexto acadêmico, ela pode ajudar o estudante a:

  • diferenciar desejo de obrigação

  • reconhecer limites sem vivê-los como fracasso

  • reorganizar a relação com o tempo e o desempenho

  • sustentar dúvidas sem colapso

  • construir uma identidade que não se reduza à produtividade

Mais do que melhorar rendimento, o trabalho clínico favorece a construção de uma posição mais saudável diante da própria trajetória.

Estudar pode ser exigente.Mas não precisa ser autodestrutivo.

Quando o processo acadêmico começa a produzir sofrimento persistente, buscar escuta é um gesto de cuidado. Não se trata de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmo.

Se você é estudante e sente que a pressão tem sido maior que o entusiasmo, talvez seja o momento de não enfrentar isso sozinho.



Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: ______. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: ______. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação (1965). Porto Alegre: Artmed.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade (1971). Rio de Janeiro: Imago.

KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: A atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

ROLNIK, Suely. Esferas da insurreição: Notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2018.

 
 
 

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