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Auto-REconhecimento: para além do auto-conhecimento

  • Foto do escritor: Wallyson Pereira dos Reis
    Wallyson Pereira dos Reis
  • 2 de mai.
  • 3 min de leitura

Autor: Psicanalista Wallyson Reis


Vivemos em uma cultura que insiste na ideia de auto-conhecimento como um ponto de chegada. Como se fosse possível, em algum momento, descobrir quem se é de forma definitiva. “Conheça a si mesmo” aparece como promessa de estabilidade, de coerência e de controle sobre a própria existência. Há algo de sedutor nessa proposta, como se, ao alcançar esse conhecimento, o sujeito pudesse finalmente repousar em si.


Mas essa promessa não se sustenta quando olhamos para a experiência clínica.

O sujeito não é um território fechado. Não é algo que se descobre e se fixa. Na psicanálise, a constituição do sujeito passa, inevitavelmente, pelo outro. Não apenas pelo outro concreto das relações cotidianas, mas por aquilo que Lacan nomeia como Outro, esse lugar simbólico que nos antecede, nos atravessa e nos oferece linguagem. Não nos conhecemos sozinhos. Nos reconhecemos.

Esse deslocamento não é apenas semântico. Ele transforma a forma como pensamos a subjetividade.


O auto-conhecimento, tal como costuma ser apresentado, carrega uma ideia de finitude.

Supõe que existe um núcleo verdadeiro do eu que pode ser acessado, nomeado e estabilizado. Há uma promessa implícita de domínio, como se fosse possível dizer, em algum momento, “eu sou isso” e encerrar a questão.

O auto-reconhecimento aponta em outra direção.

Ele não parte de um eu fechado, mas de um sujeito em movimento. Um sujeito que se percebe e se repercebe a partir dos encontros, dos conflitos e dos deslocamentos que as relações produzem. Não se trata de descobrir uma essência, mas de sustentar um processo.

Talvez possamos pensar o auto-reconhecimento como uma forma de flexibilizar as verdades que construímos sobre nós mesmos. Aquilo que um dia fez sentido pode deixar de fazer. Aquilo que parecia definitivo pode se deslocar. A identidade deixa de ser uma estrutura rígida e passa a se atualizar continuamente.


Como lembra Luiz Rufino, a vida não se dá em linha reta, mas nas encruzilhadas. Em Pedagogia das Encruzilhadas, o autor nos convida a pensar o conhecimento como travessia, como encontro com aquilo que nos desloca. O sujeito não se constitui na certeza, mas na passagem. Reconhecer-se, nesse sentido, é aceitar a encruzilhada. É sustentar a experiência de não ser um só.

Neusa Santos Souza, ao refletir sobre os processos de constituição subjetiva em uma sociedade atravessada por desigualdades e violências simbólicas, nos lembra que tornar-se sujeito não é descobrir uma verdade essencial, mas sustentar uma posição. Uma posição que se constrói, muitas vezes, em tensão com o olhar do outro. Não há sujeito fora dessa relação.


O encontro com o outro, portanto, não é apenas um acontecimento. É condição de transformação. É no olhar do outro, na resposta do outro e também no desencontro com o outro que algo de nós se revela e, ao mesmo tempo, se modifica. O sujeito não é apenas aquilo que pensa que é. Ele também é aquilo que emerge nas relações que estabelece.

Donald Winnicott oferece uma chave importante ao afirmar que é no brincar que o sujeito encontra um espaço de criação. O brincar, aqui, não se refere apenas à infância, mas a um estado em que é possível experimentar a si mesmo sem estar rigidamente fixado. Um espaço em que o sujeito pode se permitir não saber completamente quem é e, justamente por isso, abrir-se à experiência.


O auto-reconhecimento se aproxima dessa ideia de brincar. Um espaço em que o sujeito pode se experimentar, se rever e se reposicionar. Não se trata de abandonar-se ao outro, nem de se fechar em si mesmo. Trata-se de sustentar um movimento.

Talvez seja mais interessante abandonar a ideia de auto-conhecimento como ponto final e sustentar o auto-reconhecimento como processo. Um processo que não termina, que não garante estabilidade, mas que permite algo mais vivo.

Ser um sujeito que se transforma sem precisar se perder.




Referências

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

 
 
 

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