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O problema do ego ideal: O substrato da insegurança e da ansiedade contemporânea

  • Foto do escritor: Wallyson Pereira dos Reis
    Wallyson Pereira dos Reis
  • 3 de mar.
  • 3 min de leitura



Autor: Wallyson Reis - Psicanalista


Vivemos sob uma exigência silenciosa: ser sempre um pouco melhores do que somos. Mais produtivos, mais organizados, mais interessantes, mais estáveis emocionalmente, mais bem-sucedidos. A vida contemporânea não nos pede apenas que existamos. Ela exige que performemos.

Por trás de grande parte da insegurança e da ansiedade que aparecem na clínica hoje há algo menos evidente do que a chamada baixa autoestima. O que muitas vezes está em jogo não é falta de valor, mas excesso de idealização.

Sigmund Freud descreve o ideal do eu como essa instância interna que funciona como modelo do que deveríamos ser. Ele se forma a partir das identificações precoces, das expectativas parentais e das exigências culturais.


O ideal organiza, orienta, oferece direção ao crescimento. Em certa medida, ele é necessário.


O problema começa quando o ideal deixa de ser referência e se transforma em medida constante de julgamento.

A cultura contemporânea amplifica esse ideal de forma inédita. As redes sociais não criaram o ego ideal, mas lhe deram palco permanente. Ali vemos versões editadas da vida. Corpos sem falhas, carreiras em ascensão, relacionamentos harmônicos, rotinas produtivas. A comparação se torna automática e o sujeito passa a se medir por uma régua que nunca foi construída para a sua singularidade.

O resultado não é apenas frustração. É tensão contínua.

A pessoa acorda já devendo a si mesma disciplina, foco, sucesso e estabilidade. Cada erro vira prova de insuficiência. Cada pausa parece atraso. A ansiedade deixa de ser resposta a um evento específico e passa a ser estado permanente.

Muitas vezes chamamos isso de baixa autoestima. Mas, em muitos casos, trata-se de hiper idealização. Não é que o sujeito se ache sem valor. Ele se percebe aquém da imagem grandiosa que construiu como obrigação.


Donald Winnicott ajuda a compreender essa dinâmica ao falar do falso self. Quando o ambiente não sustenta a espontaneidade da criança, ela aprende a se adaptar. Aprende a oferecer ao outro aquilo que garante vínculo. Essa adaptação é necessária para sobreviver. O problema é quando ela se cristaliza. Quando o sujeito passa a existir prioritariamente como resposta ao olhar do outro.

Hoje, o olhar do outro é multiplicado por milhares. O palco é permanente. A vigilância é internalizada.


Sándor Ferenczi, ao refletir sobre o trauma relacional, mostrou como a criança pode se moldar ao desejo do adulto para não perder amor. Não se trata de vaidade, mas de medo. Medo de exclusão, de abandono, de rejeição. Algo dessa lógica permanece na vida adulta quando o sujeito vive tentando corresponder a uma expectativa que não foi escolhida, mas introjetada.

O ego ideal contemporâneo não é apenas ambição. Ele se transforma em uma estrutura de vigilância.


Ele exige coerência absoluta, produtividade constante, clareza de propósito ininterrupta. Ele não tolera limite. E quando o limite aparece, como inevitavelmente aparece, surgem culpa, vergonha ou sensação de fracasso.

Ele exige coerência absoluta, produtividade constante, clareza de propósito ininterrupta. Ele não tolera limite. E quando o limite aparece, como inevitavelmente aparece, surgem culpa, vergonha ou sensação de fracasso.

A insegurança não nasce do vazio. Ela nasce da distância entre o eu possível e o eu idealizado. Quanto maior a idealização, maior a sensação de inadequação.

Talvez o substrato da ansiedade contemporânea esteja justamente nessa tensão permanente entre quem somos e quem acreditamos que deveríamos ser.

Ser honesto com os próprios limites não é abdicar do crescimento. É reconhecer que a condição humana inclui falha, dúvida, cansaço e ambivalência. A maturidade psíquica não está em eliminar o ideal, mas em flexibilizá-lo.

O ideal pode inspirar. Mas não pode governar.

Talvez o verdadeiro problema não seja a baixa autoestima, mas a dificuldade de abandonar a fantasia de ser extraordinário o tempo todo.

E talvez a clínica seja, hoje, um dos poucos espaços onde o sujeito pode se autorizar a não performar.



Referências


FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança (1933). In: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

 
 
 

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