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Eu amei um narcisista? Entre o conceito clínico, o rótulo popular e as marcas da violência

  • Foto do escritor: Wallyson Pereira dos Reis
    Wallyson Pereira dos Reis
  • 25 de fev.
  • 3 min de leitura


Autor: Wallyson Reis - Psicanalista


Há palavras que se transformam em alívio. Narcisista é uma delas. Depois de uma relação que terminou em dor, confusão ou humilhação, a frase aparece quase como uma conclusão definitiva. Eu amei um narcisista. A palavra parece organizar o caos, dar contorno ao sofrimento, explicar aquilo que ainda está sem forma. Mas talvez seja preciso demorar um pouco mais antes de transformar essa palavra em sentença.


Na psicanálise, o narcisismo não nasce como acusação moral. Ele surge como conceito estruturante. Em 1914, em Introdução ao Narcisismo, Sigmund Freud descreve o narcisismo como o investimento libidinal que o sujeito faz em si mesmo. Antes de amar alguém, o bebê precisa, de algum modo, investir em si. Antes de dirigir seu desejo ao mundo, precisa constituir um eu capaz de desejar. Freud afirma que o narcisismo primário é um complemento libidinal do instinto de autoconservação. O que hoje se tornou rótulo, ali aparece como condição de existência.

Sem narcisismo não há identidade. Não há autoestima. Não há continuidade do ser. Todos somos narcísicos em alguma medida. Precisamos ser.


O problema não está na presença do narcisismo, mas na sua rigidez. Quando o desenvolvimento é atravessado por falhas importantes, como ausência de reconhecimento, humilhação constante ou descontinuidade afetiva, o narcisismo pode se organizar como defesa. A grandiosidade pode proteger um self fragilizado. A necessidade constante de admiração pode tentar encobrir uma experiência de vazio. A dificuldade em reconhecer o outro como sujeito pode funcionar como proteção contra a vergonha ou a sensação de insuficiência.Nada disso elimina o sofrimento de quem se relaciona com alguém organizado dessa maneira.


Há relações em que a experiência é de constante desqualificação, inversão de responsabilidade, alternância entre idealização intensa e desprezo. Há situações em que a manipulação emocional é sutil, progressiva, e deixa marcas profundas. Quando existe violência psicológica, o foco não deveria ser provar se o outro possui ou não um diagnóstico formal. Violência não depende de laudo para existir.


Ao mesmo tempo, é importante sustentar outra nuance. Nem todo desencontro amoroso é abuso. Nem toda imaturidade afetiva é transtorno. A palavra narcisista, quando usada indiscriminadamente, pode funcionar como forma de organizar a dor deslocando-a inteiramente para o outro. Isso pode aliviar momentaneamente, mas também pode impedir perguntas mais difíceis e, talvez, mais transformadoras. Que lugar eu ocupava nessa relação. O que, em mim, se enlaçava a essa dinâmica. Que expectativas, medos ou repetições estavam em jogo.


Essas perguntas não servem para culpabilizar quem sofreu. Servem para devolver complexidade à experiência. Entre transformar o outro em vilão absoluto e justificar comportamentos violentos, existe um espaço mais delicado, o da elaboração. Compreender o funcionamento narcísico não significa tolerar agressões. Significa reconhecer que, por trás de certas defesas rígidas, há histórias de falha, fragilidade e dor. E reconhecer isso não obriga ninguém a permanecer em relações que ferem.


Talvez a pergunta eu amei um narcisista não tenha uma resposta simples. Talvez ela seja menos sobre diagnosticar o outro e mais sobre compreender o que aquela relação revelou sobre nossos próprios limites, desejos e modos de amar. A psicanálise não trabalha com personagens fixos, mas com movimentos da vida psíquica. Entre o rótulo e a responsabilidade, há um campo possível de reflexão. É nesse campo que o sofrimento pode ganhar palavra e, quem sabe, não precisar se repetir da mesma forma.


Referências

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KOHUT, Heinz. Análise do self. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

KERNBERG, Otto F. Transtornos graves da personalidade. Porto Alegre: Artmed, 1995.

 
 
 

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